• Dr. Ronaldo Gismondi

Cardiopatias e arritmias na gestação

Autor: Ronaldo Gismondi

Em países ocidentais, as cardiopatias são uma das principais comorbidades maternas e a principal causa de mortalidade materna nas gestações. Apesar das patologias relacionadas à hipertensão (seja pré-existente, seja a pré-eclâmpsia e suas variações) serem as mais comuns, há muitas causas para acometimento cardiovascular nas mães. Estudos estimam que até 25% das gestantes cardiopatas necessitem de internação em algum momento da gestação.


Recentemente foi publicado um estudo europeu com 140 gestações que necessitaram de internação. Nos resultados, observou-se 328 internações, 161 de urgência e 62 (44%) por causa cardiovascular. As arritmias foram as causas mais comuns de descompensação, com 22,1% dos casos, seguido de insuficiência cardíaca descompensada (6,4%). Por outro lado, cardiopatia congênita (34%), doença valvar (10%) e hipertensão (10%) foram as comorbidades mais frequentes nesta população. A mortalidade materna ficou em 2,1% e a fetal, em 2,8%.


Consoante às arritmias, as taquiarritmias supraventriculares são as mais comuns. Estimam-se uma taxa de 24 para cada 100.000 gestantes de “taquisupra” (TSV) e de 2 para 100.000 de flutter e fibrilação atrial. Já as arritmias ventriculares são menos comuns, liderada em frequência pelas extrassístoles, seguida pela taquicardia ventricular monomórfica sustentada e, muito raramente, fibrilação ou taquicardia ventricular sem pulso (morte súbita abortada). Possíveis mecanismos para as arritmias seriam a sobrecarga e distensão das câmaras cardíacas, secundário à hipervolemia da gestação; aumento tônus adrenérgico; alterações hormonais e autonômicas.


A apresentação clínica das arritmias é similar aos pacientes em geral, podendo haver achados assintomáticos em exames de rotina, palpitações, dispneia, dor precordial e síncope. A investigação deve seguir as mesmas diretrizes, com ênfase maior na pesquisa de cardiopatia estrutural, com eletro e ecocardiograma, e nas causas metabólicas, com dosagem de TSH e eletrólitos.


O grande desafio para o cardiologista é o tratamento, pois não há medicação antiarrítmica 100% segura para mãe e feto. Os betabloqueadores, em especial após o primeiro trimestre, são as drogas que apresentam melhor relação benefício versus risco, seguido da digoxina e do sotalol. No caso de TSV, pode ser realizada manobra vagal e tentada adenosina, que pela meia vida curta, é considerada relativamente segura. A amiodarona é sabidamente associada com alterações no desenvolvimento fetal e no risco de doença tireoidiana no neonato. A cardioversão elétrica transmite mínima energia ao feto e é considerada segura, sendo indicada nos casos com instabilidade e/ou refratários. Para quem quiser uma leitura complementar, há sugestões na bibliografia abaixo.


Referências:

1. Enriquez AD, Economy KE, Tedrow UB. Contemporary Management of Arrhythmias During Pregnancy. Circ Arrhythmia Electrophysiol [Internet]. 2014 Oct 1 [cited 2021 Jul 12];7(5):961–7. Available from: https://www.ahajournals.org/doi/abs/10.1161/circep.114.001517

2. M Lipczyńska, et al. Pregnancy-related, nonelective cardiac hospitalizations and pregnancy outcomes: a tertiary referral cardiac center experience. Kardiol Pol [Internet]. 2021 Apr 29 [cited 2021 Jul 12]; Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33926168/

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